quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A Gaiola Dourada, por Tiago Ramos


Título original: La cage dorée (2013)
Realização: Ruben Alves
Argumento: Ruben Alves, Hugo Gélin e Jean-André Yerles
Elenco: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Maria Vieira e Nicole Croisille

A figura do emigrante português que viajou para França (especialmente a do período que envolveu o final dos anos 50 e os anos 70) desde cedo originou uma série de piadas e estereótipos. Ou pela sua pronúncia característica, a frequente utilização da língua portuguesa e francesa na mesma frase, pelas casas que construíram em Portugal com inspiração francesa ou pelo regresso ao país durante o mês de Verão, a verdade é que originou-se quase um fenómeno de culto no que diz respeito ao humor feito com os emigrantes. Se esse estereótipo tem mudado ao longo dos anos, a verdade é que essa primeira geração de portugueses em França (ainda hoje uma das maiores comunidades de estrangeiros no país) e que lá acabou por constituir família, tornou-se parte da nossa identidade. Daí que facilmente poderemos vaticinar o sucesso que este A Gaiola Dourada fará nas salas nacionais.

Isto porque o jovem realizador Ruben Alves conhece muito bem o tema sobre o qual trabalha (ele próprio é filho de emigrantes portugueses, nascido em França) e cria assim uma das mais divertidas comédias dos últimos tempos, que recupera até alguma inspiração nas comédias portuguesas dos anos 40. Mas a maior surpresa reside no facto (e especialmente porque estamos perante uma comédia de produção maioritariamente francesa) de, mesmo contendo muita auto-crítica, o filme consegue fazê-lo sempre de uma forma respeitosa e divertida, ironizando os estereótipos, mas nunca ridicularizando a figura do português. Uma comédia repleta de símbolos nacionais, onde nem o fado, o futebol, os pastéis de nata ou o bacalhau, ficam esquecidos. A partir daí entramos num excelente equilíbrio entre comédia e melodrama, com umas nuances muito emocionais (há uma cena belíssima onde se canta o fado e onde é difícil esconder a lágrima) e nunca descartando um olhar atento e preocupado com a situação económica actual.

O argumento trabalha os lugares-comuns da narrativa e utiliza-os a todos, mas parte do colectivo (e aí joga com a ironia das personagens-tipos) para o particular, elevando-os a um traço original, singular e distintivo, sempre com um particular reconhecimento e respeito pelas raízes nacionais. O elenco é obviamente um dos principais motivos para que todo este trabalho narrativo funcione tão bem, com uma magnífica direcção de actores: Rita Blanco eleva sempre o seu trabalho ao melhor nível possível e até Joaquim de Almeida surpreende num papel consistente, nunca esquecendo as personagens secundárias interpretadas por Maria Vieira, Bárbara Cabrita ou Chantal Lauby.

De valores de produção facilmente assinaláveis (uma direcção de fotografia cuidada, uma banda sonora agradável e da autoria de Rodrigo Leão, assim como uma montagem equilibrada e que dá espaço às personagens), A Gaiola Dourada é facilmente um dos mais divertidos e até inteligentes filmes que teremos oportunidade de assistir, não só durante esta silly season, como durante todo o ano. Ponham-se os olhos aqui e veja-se que é possível trazer para os cinemas um filme com que o público se identifique, sem comprometer a qualidade e a inteligência do espectador.


Classificação:

6 comentários:

  1. Desculpando-me a minha ignorância cinéfila, apesar da qualidade dos atores e de um argumento que poderia ser engraçado, é um filme vazio de ideias, sem piada e nada de interessante que justifique tantos elogios.

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    1. Fui ver hoje concordo com a sua opinião

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  2. Eu fui ver ontem e achei que é interessante, é um filme mais emocional que intelectual.

    Não sou muito de filmes emocionais, mas estar prestes a sair de Portugal fez-me ver o filme de outra forma.

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    1. Penso que é precisamente isso, é um filme emocional, que se apresenta como um espelho da realidade do emigrante. Tem sido muito positivo para a mudança da imagem do emigrante, especialmente pelas dificuldades que passaram.

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  3. Adorei o filme! Engraçado e dramåtico


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