quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/08/valerian-e-cidade-dos-mil-planetas-por.html

RealizaçãoLuc Besson
Argumento: Luc Besson

Podemos já confiar em Luc Besson para nos trazer filmes interessantes e estimulantes (visualmente e não só). Apesar do exagero conceptual da premissa do seu anterior filme Lucy e da forma como abordava de forma leviana alguns dos temas aí presentes, oferecia-nos uma peça de entretenimento como por vezes é difícil de descobrir em muitos "puros" blockbusters  americanos. E é desse mesmo dilema que sofre este filme.

O problema encontra-se imediatamente no título do filme do qual, saído da projecção, não conseguia desviar a minha atenção e o qual resume francamente o problema de todo o filme.
As bandas desenhadas originais, criadas em 1967 por Pierre Christin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé, focavam-se nas aventuras experienciadas pelos nossos dois protagonistas, Valérian et Laureline, tornando logo à partida a ideia de nomear apenas um deles no título da adaptação cinematográfica um pouco estranha. Mas mais ainda, olhando o filme e percebendo a constante dinâmica explorada entre Valerian e Laureline, e a tentativa de mostrar o crescimento da relação entre eles, torna tão mais estranho a opção de inserir apenas a personagem intepretada por Dane DeHaan no título, no que parece ser meramente uma opção de inserir um subtítulo sem tornar o todo demasiado longo.

Mas, infelizmente, essa mesma dinâmica não expressada no título não parece sequer ter sofrido um segundo rascunho. Desde uma história de amor tão datada e comum entre um Valerian presunçoso e impulsivo e uma Laureline mais lógica mas não por isso menos sentimental, passando por uma interpretação de Dane DeHaan que falha terrivelmente em nos fazer investir no protagonista (pelo título) do filme, e uma Cara Delevingne que é claramente melhor que o seu companheiro masculino (decisão constante e bem-vinda de Luc Besson em explorar as suas protagonistas femininas) mas que não possui uma personalidade rica o suficiente para também a querermos seguir na sua demanda, a dinâmica que se prolonga do início ao fim do filme não possui novidade ou relevância alguma.



E isso leva-nos ao segundo problema do título e do filme. O subtítulo que se foca na Cidade dos Mil Planetas, uma estação espacial criada para albergar todas as espécies do universo em harmonia, não é, nem de perto nem de longe, o enfoque da narrativa maior em que os nossos protagonistas se inserem. A cidade, também denominada Estação Alpha, fica meramente remetida a uma primeira sequência em que nos vamos apercebendo do crescimento da estação e do conhecimento que foi sendo travado entre humanos e toda a espécie de seres, a uma sequência de exposição narrada de informação relativa a essas diferentes espécies e ambiências na cidade e a uma sequência de acção, já destacada nos vários vídeos promocionais do filme. Ao contrário de Avatar, nem a construção deste universo parece ser suficiente para nos fazer querer investir mais nele, apesar de uma maior riqueza em termos visuais e narrativos que o seu homólogo.

E se ainda a narrativa geral expressasse maior interesse que o mote do filme e puxasse pelo nosso interesse, essa falta de investimento na construção do universo (desejada para o primeiro filme do que poderá vir a ser um franchise recorrente) poderia ser perdoada. No entanto, à semelhança de Avatar, ficamos restringidos à velha estória da negligência demonstrada pela raça humana por algo que não seja do seu interesse e da tentativa de ocultar os resultados das suas más decisões por entre justificações ideológicas questionáveis.

Felizmente, aquilo que de facto nos era prometido visualmente faz da primeira metade do filme, na sequência dos restantes filmes do realizador, algo novo e espantoso na qual estamos prontos a investir o nosso tempo. Desde uma primeira brilhante sequência ao som de "Space Oddity" de David Bowie, simples na sua execução e na sua falta de diálogo, à sequência em que somos transportados para um mundo completamente distinto de tudo o que se possa ter visto em qualquer filme de Ficção Científica, passando pela sequência de acção descrita acima em que, num plano contínuo e empolgante, nos é mostrado as diferenças deste universo para tantos outros já explorados em filmes como Star Wars a Avatar, e ainda por toda uma sequência num mercado de (literalmente) outra dimensão, em que as "regras" são rapidamente descritas para nos deixar entrar na missão e apreciar a execução de toda a cena, Luc Besson consegue entregar a um género já tão explorado e com técnicas já tão extenuadamente utilizadas um novo vigor que não pode deixar de ser reconhecido.

Disto tudo, guardam-se cenas memoráveis mas não um todo coeso. Ainda que a primeira metade do filme nos faça entrar com maravilha neste mundo criado há 50 anos mas não por isso menos interessante, os protagonistas (personagens e actores) não têm carisma suficiente para nos fazer ligar a uma narrativa por si só já tão usada e abusada. Recomenda-se a experiência 3D, num bom uso do mesmo que já não se via há muito tempo, e espera-se que de futuro se possa focar mais tempo no argumento para o qual o mundo já está criado.






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